30 DE AGOSTO DE 1943

Ao celebrar mais uma vez o aniversário de morte do Beato Eustáquio van Lieshout, comecei a recordar aquele dia, desejando transmitir para os que não o conheceram, algo do que eu mesmo vivi.

Quando Pe. Eustáquio soube que sua vida não duraria mais que algumas horas, ele renovou os seus votos religiosos na presença do coadjutor, Pe. Hermenegildo. Depois das palavras “na Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, em cujo serviço quero viver e morrer” ele acrescentou: ‘graças a Deus, agora estou pronto’... e o Pe. Gil, por que não vem?”

O Pe. Gil era o seu superior religioso, mas ao mesmo tempo um grande amigo e companheiro, desde os tempos da juventude.

Às nove horas do dia 30 entrou em agonia, conservando, porém, o uso das faculdades. Acompanhou as orações dos moribundos, perguntando com insistência pelo amigo. Parecia recusar despedir-se da vida sem ter visto seu superior e companheiro das primeiras lutas no Brasil. Finalmente, às 10:45 chega o Pe. Gil, vindo do Rio de Janeiro.

Entrando no quarto, Pe. Eustáquio o reconheceu imediatamente; quis erguer-se, mas em vão. “Padre Gil, Deo gratias!”, foi tudo o que conseguiu dizer. E imediatamente entregou sua alma a Deus.

Padre Eustáquio esteve em Belo Horizonte apenas um ano e quatro meses. Hoje tem-se a impressão de que viveu aqui a vida toda. Como criança que eu era, além disso muito tímida, não podia avaliar o que estava acontecendo naqueles tempos. Mas o certo é que também as crianças do bairro sabiam que o Pe. Eustáquio tinha algo de especial. A notícia de sua morte chegou à nossa escola (Grupo Escolar Melo Viana, na rua Bom Sucesso) pelas 11 horas. A turma do período da tarde ia chegando e trazendo a notícia: Pe. Eustáquio morreu! Pe. Eustáquio morreu”... As professoras não conseguiram segurar mais os alunos do turno da manhã, que estudavam do outro lado da rua, no porão de uma casa alugada. Saímos todos correndo, em direção à Igreja matriz provisória, situada na Rua Pe. Eustáquio, esquina com Perdizes. Eu morava na rua Bonaparte, 84. Por isso ainda encontrei o Pe. Hermenegildo meio desesperado, que dizia: isso nunca me aconteceu, não sei bem o que fazer! Foi um abalo enorme, pois o padre era forte, robusto, jovem ainda, com apenas 53 anos de idade. A causa desta morte prematura foi a picada de um carrapato infectado, transmitindo-lhe tifo exantemático, segundo os médicos. Até hoje o Hospital “Alberto Cavalcante” guarda reservado o quarto onde ele entregou a alma a Deus.

O Velório, a Missa de Corpo Presente, e a Encomendação se realizaram no dia seguinte, na mesma igreja provisória, e o enterro foi uma verdadeira apoteose. Mas tudo isso sessenta e quatro anos atrás. Hoje já podemos invocá-lo oficialmente: Beato Padre Eustáquio, rogai por nós! E em nome dele desejar a todos Saúde e Paz!

Pe. Vicente da Rocha Diniz ss.cc.
Extraído do Boletim Informativo - Pedras Vivas - Paróquia dos Sagrados Corações - BH-MG
Ano LXII - Nº 1446 - agosto 2007