CELEBRAÇÃO DAS BODAS DE OURO
PADRE OSVALDO GONÇALVES, SS.CC.
– 21 de dezembro de 2007 –

No final da Celebração Eucarística realizada na Paróquia Sagrados Corações (Belo Horizonte, MG), presidida pelo Cardeal Dom Serafim Fernandes, o nosso querido Pe. Osvaldo (conhecido carinhosamente na Obra de Caná como “P.O.”) dirigiu-nos as seguintes palavras :

“Meus queridos irmãos, minhas queridas irmãs:

Uma palavra resume tudo o que eu deveria dizer: Obrigado! Mas vou falar mais coisas a respeito da minha trajetória nesses 50 anos, para satisfazer à curiosidade das pessoas.

Se me perguntarem “o que é que você fez durante os 50 anos de padre”, eu poderia responder: “Lutei”! Lutei muito! Seria, porém, uma evasiva e vocês não ficariam satisfeitos. Nem eu. Por isso vou falar mais.

Fui ordenado padre em Patrocínio, minha cidade natal, no dia 2l de dezembro de l957, por Dom José André Coimbra, então Bispo da Diocese de Patos de Minas. Em seguida, voltei para o Seminário da Congregação, em Pindamonhangaba, para completar o curso de teologia. Passou um ano. Depois, fui para a cidade de São Paulo, para um Curso de Pastoral. Trabalhei na Paróquia de Santo Emídio, dirigida pela minha Congregação, em Vila Prudente. Passou mais um ano. De lá, fui enviado para lecionar no Seminário Menor, da Congregação, em Ferraz de Vasconcelos, subúrbio da capital paulista. Passou mais um ano. Então, recebi nomeação para trabalhar no Secretariado da Obra da Entronização, sediada na Paróquia dos Sagrados Corações, em Belo Horizonte.

Estávamos em l96l. Aqui, em nossa capital criei raízes e fiquei até hoje. Passaram 47 anos. Além do atendimento a tudo o que se refere ao trabalho da Entronização, foi me dada a responsabilidade da redação das revistas editadas pela Congregação, para divulgar a Entronização. Nesse período fundei a Editora Promoção da Família, fiz curso de jornalismo e editei as revistas Reino e A Turma, durante 30 anos, até que tudo veio à falência.

As minhas atividades pastorais foram sempre voltadas para a Família e a Juventude. Paralelamente a tudo o que a editora, as revistas e o trabalho da Entronização exigiam de mim, participei, durante um bom tempo, de Encontros Conjugais, em diferentes estados do Brasil, juntamente com o casal Leonel e Stella. Era um trabalho ligado ao Movimento Familiar Cristão, que serviu para mim de treinamento na Pastoral Familiar. E isso foi muito importante na minha vida.

Em l97l fixei-me no endereço da Rua Henrique Gorceix, para um trabalho especial com os jovens. O Papa Paulo VI acabava de dizer ao mundo que “o Desenvolvimento é o novo nome da paz”. Criamos então o grupo “Jovens PRO DESENVOLVIMENTO”, onde identificamos a sigla PRODES, correspondente à palavra latina que nós traduzimos por “VOCÊ É ÚTIL”. Ser útil é vocação para todo ser humano. Ser útil é um ideal que deve motivar de modo especial a juventude. O grupo ficou conhecido pelo nome de PRODES. Ele está vivo e atuante até hoje. A seguir, com a participação de uma equipe cheia de entusiasmo, implantamos o Encontro de Revisão Matrimonial. Atingindo pais e filhos, nasceu a FAMÍLIA DE CANÁ, para ajudar as famílias por meio de encontros de fim de semana. Daí surgiu, também, como exigência da pastoral familiar, o trabalho para salvar os dependentes de drogas, com a criação da FAZENDA RECANTO DE CANÁ, que já tem vinte anos de existência.

Se me perguntarem se valeu a pena, apelo para a rima de Fernando Pessoa, e me interrogo se fiz tudo com alma grande ou pequena. “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”, diz o poeta. E eu confesso que às vezes tive a alma pequena. Foi quando me queixei do pouco resultado dos trabalhos. Quando perdi a paciência com as pessoas. Quando fiquei desanimado, querendo desistir. Quando cobrei dos outros, exigindo mais do que podiam dar. Disseram-me que é preciso fazer as coisas como se tudo dependesse de mim e esperar resultados como se tudo dependesse de Deus. Muitas vezes não soube agir assim.


Se me perguntarem: “Você gostaria de começar tudo de novo?” Respondo que não. Recomeçar não. Mas seria bom poder voltar atrás em alguns pontos, e reparar falhas e erros. Mesmo não querendo recomeçar, quero entrar em uma nova fase, com mais fé e mais amor, com mais esperança e humildade, com mais paciência e capacidade de servir. Acredito que, hoje, estou mais preparado para vencer obstáculos e ajudar melhor as pessoas. Ficarei contente se Deus me der mais uns anos de vida, com saúde, para terminar projetos iniciados e para reparar omissões, que me deixaram em débito com as pessoas e com a minha Congregação, e conseqüentemente com Deus. Esta fase da vida tem sentido pela doação. Eu quero doar-me mais e melhor no tempo que me resta. Só doar!

Talvez queiram me perguntar ainda o que é que eu considero mais importante de tudo o que fiz. Direi que foi “pregar a palavra”. São Paulo manda “pregar oportuna e importunamente, quer agrade ou não”. E exclama: “Ai de mim se não evangelizar”. Jesus manda pregar “de cima dos telhados”, o que eu entendo como, pregar onde estiver, apelando para todos os recursos, a fim de que o anúncio do Evangelho possa chegar a todos. Jesus exige a fé. São Paulo afirma que a fé “vem pelo ouvido. Como alguém vai crer se não tiver recebido a mensagem, se não houver quem lhes fale?” Dediquei-me muito ao ensino do catecismo, e criei estruturas para que esse ensino não ficasse apenas em conhecimentos teóricos, mas unisse a fé à vida. Para isso, sempre me empenhei em promover os encontros de fim de semana, como estratégia para pregar a palavra e convencer as pessoas.

Das coisas importantes que eu fiz, há uma que considero muito ousada: Escrevi um Catecismo. Quando consegui uma editora, já que a nossa tinha encerrado suas atividades, um confrade com um pouco de ironia lembrou o nome do Cardeal Ratzinger. Admito que a expressão do meu confrade possa ser mais de espanto do que de ironia. Mas entendi que escrever um catecismo era demais para mim. Tomei consciência do meu atrevimento. Quem sou eu para escrever um catecismo. Faltavam-me títulos para tanto. Chamei-o de “Catecismo Sintético”. Fiquei até em dúvida se era válido fazer sínteses de assuntos tão graves e tão exigentes, para a vida cristã.

Quando o Cardeal Ratzinger, hoje o Santo Padre Papa Bento XVI mmandou editar o seu “Compêndio do Catecismo”, fiquei aliviado porque o próprio Papa achou válido um compêndio e porque o meu “sintético” estava dispensado. O que eu queria mesmo era ter um catecismo completo e resumido. Teimosamente continuo usando o meu pequeno catecismo. É o meu esquema de pregação. E continuo achando que ensinar o catecismo é a minha tarefa mais importante. Faço isso algumas vezes por semana. Recebi como elogio e não como censura a observação de uma pessoa, em conversa de corredor, sobre minhas palestras nos encontros: “o padre Osvaldo nos dá uma aula de catecismo”. Mas foi dito também, e eu ouvi com muita alegria: “aprendi coisas que não tinha escutado em lugar nenhum”. Eu não me canso de repetir aos casais que eles devem ser os primeiros catequistas dos seus filhos. Acho que estou certo, pois encontro sempre gente adulta que vem comungando e não sabe o que é Santíssimo Sacramento; gente adulta que acaba de ser batizada e não sabe o que é Santíssima Trindade; gente crismada recentemente que tem apenas uma noção vaga da doutrina cristã e nem tem idéia do que foi o Pentecostes. Até mesmo um jovem me disse que estava drogado, ao receber o sacramento da Crisma. Quando nas reuniões pergunto quem já leu um catecismo inteiro, dois ou três levantam a mão. Por que estou dizendo essas coisas aqui? É para confirmar a fama que eu tenho de estar sempre puxando as orelhas das pessoas. Jesus quando falava coisas importantes dizia: “Quem tem ouvidos ouça!” E eu acredito que puxar as orelhas é um recurso para abrir um pouco os ouvidos; mexe mais com as pessoas e dá esperança de chegar ao coração.

Agora posso terminar a minha fala. Sei que não convém me gloriar de nada do que fiz. Mas convém glorificar a Deus por tudo o que Ele realizou, em mim, e por tudo o que pude realizar como instrumento em suas mãos. Quero agradecer e louvar, e peço que todos, comigo, agradeçam e louvem o Santo Nome do Senhor!

Obrigado Deus Pai, que me amaste primeiro e me deste tudo o que tenho e tudo o que sou! Obrigado, Senhor Jesus, que me fizeste teu seguidor e apóstolo, exercendo o sacerdócio durante 50 anos! Obrigado, Espírito Santo, que me encheste de graças para perseverar, crescer e me tornar instrumento de santificação para muitas pessoas!

Obrigado meus pais, que me criaram e educaram; meus irmãos e irmãs da minha família, que sempre me amaram e ajudaram. Obrigado, meus irmãos da Congregação pela formação e o apoio, desde a adolescência! Obrigado, meus irmãos e irmãs, leigos e leigas, por sua ajuda no apostolado pela Família e pela Juventude! Obrigado, irmãos e irmãs, que junto comigo se dispõem a dar a vida para salvar os dependentes de drogas. Obrigado, irmãos e irmãs, que me estimulam, assistem e sustentam com o seu amor generoso e o seu serviço constante! Obrigado aos que prepararam esta celebração e as nove outras durante o ano... Muito obrigado! Um agradecimento muito especial a Dom Serafim e a Dom Arnaldo, por seu apoio ao nosso trabalho, sua atenção e carinho com a minha pessoa, e por sua significativa presença na celebração de ação de graças pelos meus 50 anos de padre.

Que Deus continue nos assistindo e abençoando! Assim seja!”

Pe.Osvaldo Gonçalves ss.cc.

 

Aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria toda honra e toda glória!